quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Réquiem.

Ricardo Gondim.

Meu sol, envergonhado, sujeitou-se às sombras; minhas nuvens, tristes, encolheram-se no horizonte; meu dia, em posição fetal, chorou sangue.

Rasgo minhas vestes, espalho cinzas sobre minha calva e peço às carpideiras que chorem por mim. Sou molambo de sangue menstrual, um lixo infectado, mero fósforo riscado.

Tenho um lamento que sufoca o riso, um pranto que vira grito e uma angústia que estreita as paredes de meu caminho. Sou uma orquestra que só toca Réquiens, um beco úmido de tristezas, um prado esburacado pelas decepções.

Convenci-me de que a trapaça prevaleceu no jogo e eu perdi a partida. Mesmo peregrino, já abandonei todos os sonhos juvenis na beira da estrada. Fui soldado, mas perdi a baioneta e resta-me agachar na trincheira. Sonhei em ser artista, mas despedaçaram o piano que agora acende a fogueira que me devora. Vi-me profeta, mas só desejo uma caverna para me esconder.

Minha cidade cospe em meu rosto, meus conterrâneos conspiram contra mim, meus patrícios me tratam como estrangeiro. Condenei-me a ser um seixo que a vaga despreza, um garrancho estorricado da caatinga, um triste coveiro que volta para casa depois de sua labuta inglória.

Minha aldeia está deserta. Rapinaram minha casa, saquearam meu claustro, invadiram minha alcova. Tento amealhar qualquer rescaldo e só encontro tições frios. Procuro recompor o cenário de paz e me perco na bagunça que se espalhou por todos os cômodos.

Minha escrita perdeu o ritmo. Solaparam minha poesia. Meu texto parece um amontoado de tábuas no quintal da serraria. Percebo um franzir de sobrolhos por detrás de meus ombros e, tímido, escrevo platitude. Sou um Galileu Galilei sempre retrocedendo no que acredito, nervoso com a patrulha inclemente da religião.

Sou tentado como Jonas a embarcar rumo a Tarsis -perdi o medo do grande peixe. Parceiro de Davi, tenho vontade de afundar minha cama no Hades e de fazer das trevas um lençol. À semelhança de Elias, fujo sem receio de parecer covarde diante das ameaças vazias de uma rainha doida.

Caia eu em tuas mãos, ó Misericordioso Deus. Mas poupa-me do inferno que me rodeia, pois minha esperança é o Senhor.

Soli Deo Gloria.

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